Mateus 1:18

Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, ela se achou ter concebido do Espírito Santo.
 
"Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim..."
O versículo introduz, de forma enfática, a versão que pretendia dar ao nascimento de Jesus.
Tal ênfase visa estabelecer a versão oficial que se pretendia dar ao acontecimento e, ao mesmo tempo, repelir qualquer outra versão que viesse a ser apresentada. Qualquer divergência da versão oficial colocaria em risco toda a estrutura do cristianismo institucional, em vigor desde sua origem. Os pilares desta versão são: concepção pelo Espírito Santo e nascimento virginal. O que se pretendeu foi precisamente descartar qualquer possibilidade de que a concepção tenha ocorrido de qualquer outra forma, o que poderia, numa visão pragmática, desqualificar a divindade de Jesus Cristo. Estes aspectos serão discutidos no decorrer da análise do versículo.
"Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem..."
Temos aqui a apresentação dos pais de Jesus. Maria e José estavam noivos, o que segundo a lei judaica equivalia a casamento. Naquela cultura, como em muitas outras, até hoje, os casamentos não ocorriam segundo a vontade dos noivos, mas conforme conveniências familiares, levando-se em conta aspectos econômicos e sociais. Somente critérios objetivos relevantes poderiam impedir o futuro casamento como, por exemplo, adultério comprovado.
Ocorre que a lei judaica era extremamente rígida com o adultério, que era punido com o apedrejamento até a morte. "Se houver moça virgem desposada e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis até que morram: a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo. Assim exterminarás o mal do meio de ti." (Deuteronômio 22:23-24) .
É de se presumir que poucos, principalmente as mulheres, se arriscariam numa aventura sexual ilícita que poderia levar à morte, em troca de um prazer tão fugaz. O noivado representava um casamento quase consumado, ao ponto de ser costume que os noivos morassem juntos antes da celebração final do casamento, mas sem que houvesse relações sexuais, pelo menos em tese. A Passagem indica que não teria havido relações sexuais entre eles, pois não tinham se ajuntado, fato que é sustentado por outras textos bíblicos, que afirmam categoricamente a virgindade de Maria até o parto.
"...ela se achou ter concebido do Espírito Santo."
Não tendo havido relações sexuais entre Maria e José, como ela teria engravidado? Só resta uma explicação: uma gravidez miraculosa, consumada de forma sobrenatural pelo próprio Espírito Santo. Porém, a gravidez miraculosa de Maria não representa um fato novo e único. Temos outros casos na Bíblia, como o de  Abraão e Sara (Gen 18:11-14), Isaque e Rebeca (Gen 25:21) e Elcana e Ana (I Sam 1:4-20). Em todos eles a gravidez se dá por intervenção divina. A diferença reside somente no fato de que Jesus, conforme o texto, não teve pai humano, o que também não constitui novidade, já que as mitologias de outras civilizações, inclusive anteriores à israelita, trazem inúmeros casos de filhos nascidos do contato entre um deus e uma mulher ou entre uma deusa e um homem, mostrando que a versão ora apresentada sobre a concepção de Jesus não constitui uma narrativa original e única, como a maioria pensa. Há denominações cristãs, como o mormonismo, que sustentam que o próprio Deus visitou Maria e com ela se relacionou sexualmente, ocasionando a gravidez. Para os Mormons, Deus é um ser material, como qualquer ser humano, mas dotado de poderes ilimitados.
É fato inegável, por outro lado, ao contrário do que muitos sustentam, que esta gravidez não representa a origem, mas a encarnação de um ser espiritual já existente, conforme atesta o primeiro capítulo do evangelho de João: "No princípio era o Verbo..." (João 1:1); "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade." (João 1:14). Jesus sempre existiu espiritualmente e encarnou, demonstrando que o espírito e o corpo são entidades distintas.
O aspecto extraordinário e miraculoso da concepção de Jesus está em sua origem espiritual. Todos os demais aspectos relacionados ao tema assumem pouca ou nenhuma importância, como a virgindade de Maria ou inexistência de pai biológico. Tais peculiaridades nada representam e nenhum valor poderiam agregar à plenitude espiritual de Jesus, não tendo, portanto, qualquer propósito a não ser o de satisfazer a percepção limitada e estritamente materialista das massas. A gravidez e o nascimento foram meras etapas pelas quais o Verbo teve que passar para assumir uma existência física, embora fosse perfeitamente possível que ele se materializasse a partir do nada, caso quisesse. Tal abordagem, entretanto, não seria compatível com o propósito de sua encarnação, que foi o de mostrar, através do exemplo vivo, o caminho para o crescimento espiritual e aproximação da perfeição do Criador.
 
 

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